quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

As Festas do SENHOR - Parte 2

Continuando a série sobre as festas judaicas, vou completar aqui a descrição das festas celebradas na primavera. Tenha em mente que estas festas são um resumo do plano de redenção e contam a história do mundo até a consumação do Reino de Deus na terra. As três festas comentadas aqui já tiveram seu cumprimento profético após a primeira vinda de Cristo.

Festa dos Pães Ázimos

Como vimos no post anterior, a festa da páscoa simboliza a morte de Cristo, e tem seu cumprimento na sexta-feira da crucificação, no dia 15 de Nizan, conforme o calendário judaico. Este é também o primeiro dia da Festa dos Pães ázimos, uma celebração que dura sete dias:


“E aos quinze dias deste mês é a festa dos pães ázimos do Senhor; sete dias comereis pães ázimos.”, Lv 23:6

Os judeus são extremamente cuidadosos ao preparar os pães ázimos (sem fermento). O fermento simboliza o pecado e é necessário que seja eliminado das casas durante a festa. Qualquer grão que fermenta ao se decompor deve ser retirado das casas. Segundo a tradição, para não deixar a farinha fermentar, do tempo em que ela é amassada até o tempo de assar não podem passar mais de 18 min. Além disso, para desacelerar o processo de fermentação, usam água fria em vez de água quente e espetam a massa para sair o ar. Os seguintes grãos são considerados proibidos por fermentarem rapidamente: trigo, cevada, aveia, centeio e espelta.
A festa dos ázimos é como uma continuação da páscoa e relembra a saída do povo de Israel do Egito. Num sentido profético, representa o corpo de Cristo, que foi entregue sem pecados (sem fermento) e sepultado no dia 15 de Nizan para nos livrar da escravidão (Egito).
“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.”, Jo 6:51
Festa das Primícias
Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando houverdes entrado na terra, que vos hei de dar, e fizerdes a sua colheita, então trareis um molho das primícias da vossa sega ao sacerdote; E ele moverá o molho perante o Senhor, para que sejais aceitos; no dia seguinte ao sábado o sacerdote o moverá.”, Lv 23:10-11

Esta é uma festa anual da colheita de primavera. Um feixe com as primícias da colheita era entregue ao sacerdote e este o tomava em seus braços e o movia de um lado para o outro perante o Senhor no domingo seguinte à colheita. Mas, pra que isso? O sentido fica claro quando nos deparamos com o cumprimento profético da festa. Adivinhe em que dia foi celebrada a primeira festa das primícias após a morte de Cristo. Acertou quem falou “no domingo da ressurreição”. “Coincidentemente”, foi no dia desta festa que Jesus se moveu para fora do túmulo. Ele que é o grão que morreu para produzir muito fruto:
“E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado. Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto.”, Jo 12:23-24
Ele é, também, as primícias dos que dormem:
“Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem. Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem.”, I Co 15:20-21
Outras pessoas foram ressuscitadas antes de Jesus na Bíblia, mas todas elas tornaram a morrer. Jesus foi as primícias dos que dormem (morrem), ou seja, o primeiro a ressuscitar com um corpo glorificado e imortal.

Os Cristãos costumam celebrar a ressurreição de Cristo no domingo de páscoa. Mas na verdade, se fôssemos seguir o sentido das festas judaicas, deveríamos celebrar a páscoa na sexta-feira, em memória da Sua morte, e depois celebrar a festa das primícias no domingo, em memória de Sua ressurreição.

Festa das Semanas, Dia das Primícias ou Pentecostes

Sete semanas após o domingo de primícias era celebrada a festa das semanas, que em grego era chamada de pentecostes, que significa quinquagésimo, por ser celebrada no quinquagésimo dia após as primícias. Ela também é chamada de dia das primícias em Nm 28:26 (não confunda com festa das primícias, que é a festa anterior). Neste domingo de pentecostes, eram oferecidos dois pães com fermento, além dos sacrifícios:
“Das vossas habitações trareis dois pães de movimento; de duas dízimas de farinha serão, levedados se cozerão; primícias são ao Senhor... Então o sacerdote os moverá com o pão das primícias por oferta movida perante o Senhor, com os dois cordeiros; santos serão ao Senhor para uso do sacerdote.”, Lv 23:17,20

Por que desta vez os pães são levedados? E por que dois pães?

A resposta, mais uma vez, é percebida no cumprimento da profecia escondida por trás da festa. No quinquagésimo dia após a ressurreição de Cristo, o Espírito Santo veio sobre os discípulos no dia de Pentecostes e batizou-os, dando início ao corpo de Cristo, a Igreja. Neste dia, após a pregação de Pedro, 3000 pessoas se converteram. Estes são os primeiros frutos, ou primícias, da Nova Aliança (Tg 1:18), colhidos pelo Espírito Santo no dia das primícias. Os pães são levedados porque desta vez eles não representam o corpo físico de Cristo, mas sim o Seu corpo simbólico, a Igreja, formada de pecadores. Os dois pães provavelmente representam judeus e gentios, que são unidos em um só corpo na Igreja (I Co 12:13).
Uma curiosidade sobre o dia das primícias: Em Ex 32:28, quando Moisés desce do monte Horebe e encontra o povo adorando o bezerro de ouro, Deus ordena que os levitas matem os que se corromperam espiritualmente, e 3000 homens são mortos ao fio da espada. Três mil pessoas morreram quando a Lei foi dada na inauguração da Velha Aliança, ao passo que 3000 pessoas receberam a vida eterna quando o Espírito Santo foi dado na inauguração da Nova Aliança.

Fonte:  Mal Couch, "Messianic systematic theology of the Old Testament", Scofield Ministries


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

As festas do SENHOR

No post "O Israel de Deus"  eu argumentei que o povo de Israel é, em si mesmo, uma das grandes evidências de que a Bíblia é verdadeira, devido ao cumprimento de suas promessas e profecias sobre a nação escolhida. Uma vez que se aprecie este fato, abrem-se os olhos para o entendimento do plano que Deus tem para o mundo em todas as épocas. A Israel foram dados inicialmente os oráculos de Deus e nestes oráculos revelam-se de maneira impressionante os principais eventos do futuro do planeta, em particular no que se refere ao plano de redenção. Uma das chaves para entender este plano são as festas do SENHOR.

As festas do SENHOR a que me refiro são as 7 celebrações anuais, entregues como ordenança ao povo de Israel. Quatro delas celebradas na primavera e três no outono. Elas são descritas, entre outros lugares, no capítulo 23 de Levítico. A maioria das pessoas acha Levítico um livro cansativo, mas ele sempre foi um dos meus livros favoritos na Bíblia. Talvez porque eu seja fascinado pela doutrina da expiação pelo sangue. "A vida está no sangue", e este é para expiação pela alma (Lv 17:11). Todas as 7 festas judaicas eram banhadas de sangue de cordeiros e outros animais. São elas:

1) A Páscoa (Lv 23:5; Ex 12:3-11), onde cada família deveria ofertar e comer 1 cordeiro;

2) A Festa dos Pães Ázimos (Lv 23:6-8; Nm 28:19), onde eram sacrificados 2 novilhos, 1 carneiro, 7 cordeiros, 1 bode, além do holocausto contínuo;

3) A Festa das Primícias (Lv 23:9-14; Lv 23:12), com 1 cordeiro sacrificado;

4) A Festa das Semanas (ou Pentecostes) (Lv 23:15-22; Nm 28:27), 7 cordeiros, 1 novilho, 2 carneiros, 1 bode e mais 2 cordeiros;

5) A Festa das Trombetas (Lv 23:23-25; Nm 29:2-5),  1 novilho, 1 carneiro, 7 cordeiros, 1 bode;

6) O Dia da Expiação (Lv 23:26-32; Nm 29:8), 1 novilho, 1 carneiro, 7 cordeiros, 1 bode;

7) A Festa dos Tabernáculos (Lv 23:33-43; Nm 29:38), 14 carneiros, 98 cordeiros, 70 novilhos, 7 bodes (isso é que é Festa!).

As quatro primeiras festas simbolizam eventos que se cumpriram na primeira vinda do Messias ao mundo. As três últimas se cumprirão na Sua segunda vinda. Em posts futuros eu vou tentar convencê-los disso, além de tentar deixar claro que a Bíblia definitivamente ensina o pré-milenismo. Por hora, vou apenas comentar a primeira festa: a Páscoa.

A Páscoa (do hebraico Pesach, que significa "passar por cima") é a festa mais antiga dentre os eventos que são mundialmente celebrados (pelo menos é o que diz o livro "Messianic systematic theology of the Old Testament", de Mal Couch). Os cristãos celebram hoje a páscoa em comemoração à ressurreição de Jesus. No entanto, o sentido Bíblico da festa original era a morte do cordeiro para salvar o povo. Na décima praga do Egito, aqueles que passassem sangue do cordeiro na porta de casa seriam poupados da morte do seu primogênito:

"E aquele sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo eu sangue, passarei por cima (pesach) de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando eu ferir a terra do Egito.", Ex 12:13

Os judeus foram salvos pela fé no sangue do cordeiro.

Para entender o cumprimento profético da Páscoa, vou dar alguns detalhes de como os judeus a celebravam na época de Cristo. Preste atenção nas datas.
  • O cordeiro pascal deveria ser separado no dia 10 do mês de Nisan (entre março e abril do nosso calendário). Ele deve ser examinado pelo sacerdote para saber se é sem defeito nem mancha (Ex 12:3-5);
  • Deve ser sacrificado aos 14 de Nisan e comido em casa na noite de 14 para 15 de Nisan, sem quebrar os ossos (Ex 12:46);
  • Durante a refeição são comidos pães ázimos (sem fermento) e ervas amargas (Ex 12:8);
Os judeus, ao longo dos séculos, adicionaram elementos à tradição da páscoa que estão claramente presentes nos evangelhos. Uma destas tradições é o sacrifício de um segundo cordeiro no dia 15 de Nisan, após a ceia da noite do dia 14 para o dia 15. Note o que aconteceu no dia 15 após Jesus ser preso:

"Depois levaram Jesus da casa de Caifás para a audiência. E era pela manhã cedo. E não entraram na audiência, para não se contaminarem, mas poderem comer a páscoa.", Jo 18:28

Os judeus não queriam entrar na audiência com Pilatos porque os judeus não se aproximavam de estrangeiros antes da páscoa para não serem "contaminados" pelo contato com eles. Mas se Jesus já tinha ceiado com os discípulos na noite anterior, por que dizer que eles ainda queriam comer a Páscoa? Trata-se do segundo cordeiro, morto às 9:00 do dia 15 de Nisan.

Agora, compare a sequência acima com o que ocorreu na última semana antes da crucificação de Jesus:
  • Jesus foi à casa de Lázaro em Betânia 6 dias antes da Páscoa (Jo 12:1), isto é, no dia 9 de Nisan, antes da grande celebração do dia 15. No dia seguinte, 10 de Nisan, Jesus entra em Jerusalém (Jo 12:12). Lembre-se de que este era o dia em que o cordeiro pascal era separado e examinado pelos sacerdotes, antes de ser morto no dia 14. De 10 a 14 de Nisan, Jesus foi examinado por fariseus, saduceus e herodianos e não se achou falha nEle (Jo 8:46). Mais tarde, até Pilatos declarou isso (Lc 23:4);
  • Jesus tinha que estar vivo no dia 14 para comer a páscoa, mas Ele morreu no dia 15 às 9:00 (Mc 15:25 - a hora terceira para os judeus, já que o amanhecer é às 6:00). Esta é a hora exata em que o segundo cordeiro pascal era sacrificado no pátio do templo;
  • Seus ossos não foram quebrados (Jo 19:33,36), assim como os do cordeiro pascal;
  • O pão sem fermento da páscoa representa que Cristo era sem pecado (I Co 5:8);
  • É desnecessário comentar o significado das ervas amargas.
Não é à toa que João Batista declarou: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.", Jo 1:29

Postscript:

Os judeus têm uma tradição curiosa durante a ceia de páscoa. O líder da cerimônia tem uma bolsa com 3 pedaços de matzoh (o pão sem fermento). Este pão é riscado e possue buracos. No meio da refeição, um dos pedaços é retirado da bolsa e quebrado. A parte menor volta para a bolsa e a maior é envolta em um pano de linho e escondida. Ao final da refeição, eles procuram o pedaço escondido e quando o acham, todos se alegram.

O significado e origem desta cerimônia são discutidos entre os judeus. Mas para os judeus cristãos, a explicação parece óbvia. Os três pedaços nos lembram da Trindade. O pedaço retirado nos lembra da encarnação de Jesus. As listras e furos no pão nos lembram que o corpo de Jesus foi riscado pelos açoites e perfurado pelos pregos. O partir do pão lembra sua morte. O pedaço envolto em linho e escondido é o corpo de Cristo, envolto em um lençol e sepultado. Quando o pedaço é encontrado eles se alegram, assim como os discípulos se alegraram quando encontraram Jesus ressuscitado.

"E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo.", Mc 14:22


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Desventuras em série

Roteiro para abrir falência em três meses e meio:

18 de Junho de 2011:

Minha esposa, Lucy, estava para sair da garagem do nosso apartamento e acionou o portão pelo controle remoto. Sempre abrimos o portão a partir da nossa vaga, mesmo sem poder vê-lo, pois confiamos no sensor de segurança que bloqueia o portão em caso de algum carro ou pessoa estar entrando. Só que desta vez, por alguma razão o sensor parece não ter funcionado e o portão acabou batendo no carro da vizinha, que estava entrando bem na hora que a Lucy acionou o controle. Como o condomínio recusou-se a pagar pelo estrago, resolvemos dividir o conserto de R$600,00 com a vizinha. Tínhamos acabado de comprar os móveis da cozinha e esta conta não estava nos planos.

Julho:

Meu mês de férias de inverno. Tenho direito a duas semanas livres nesta época, mas tive que ficar trabalhando durante todos os dias, pois tinha que preparar um trabalho para apresentar em uma conferência sobre Física Solar em Estocolmo. O pessoal da Suécia concordou em pagar minha passagem e diárias. Assim, eu comprei a passagem mais barata que tinha, para não onerá-los. Mesmo assim, como tive que comprar a passagem em cima da hora, ficou caro: mais de R$3700,00. Paguei com cartão de crédito, aguardando o reembolso dos suecos.

Pensei em deixar tudo arrumado para a Lucy não ter problema com o carro durante estes dias: fazer a revisão mecânica dos 30.000 km e pagar o licenciamento. O mecânico foi uma facada: R$850,00. Paguei com o cartão de crédito. Depois, fui pro poupa-tempo pagar o licenciamento, seria R$70,00. Levei os comprovantes de pagamento de IPVA e DPVAT e fui pro caixa. Quando cheguei lá, a moça me passou a conta: R$1200,00.

- "Como assim, R$1200 ?!? São só R$70,00", eu exclamei.
- "Está marcado aqui no sistema", ela replicou. "IPVA + DPVAT + licenciamento".
- "Já paguei o IPVA e o DPVAT. Estão aqui os comprovantes".
- "Estranho. O sistema não registrou. Me passe o documento do carro que eu vou dar baixa".

Entreguei, confiante, o documento e os recibos.

- "Mas não é este carro, senhor". "O seu é um Ford Ka, este recibo é de um Celta".

Fiquei branco na hora. Paguei estas contas em janeiro. Claro, paguei do carro errado. As contas eram do antigo proprietário do apartamento. Quando elas chegaram em janeiro, paguei sem nem olhar de que carro era. Corri pro caixa eletrônico, saquei o dinheiro e fui pagar.

A esta altura, tive que fazer um empréstimo de R$3.000,00 para cobrir estas despesas e poder levar dinheiro para a Suécia para pagar as primeiras diárias, até que os suecos me reembolsassem. Preparei as malas e fui com a Lucy e minha filha Isabelle pro aeroporto. Dois meses me preparando para esta viagem, mas agora finalmente estava a ponto de embarcar. Imprimi os tickets e fui pro check-in.

- "Passaporte, por favor", disse a moça da Continental Airlines.
- "Aqui está".

Ela olha o passaporte de um lado a outro e me devolve:

- "Não tem visto americano nenhum aqui, senhor".
- "Claro que não tem. Estou indo pra Suécia, não pros Estados Unidos".
- "Mas seu vôo tem conexão em Nova Jersey."
- "Mas só vou trocar de Avião".
- "Mas precisa de visto assim mesmo".

Desta vez fiquei verde. Não pude acreditar. Fui pro guichê da Continental tentar um reembolso. Descobri que a passagem era não-reembolsável. Decepção total, fora o mico de ter que ligar pra Suécia dizendo que não ia aparecer porque fui ingênuo e não tirei o visto pro vôo de conexão. Isto sem falar que agora eu ia ter que arcar com todas as despezas. Pelo menos a Isabelle ficou feliz que o papai não ia mais ficar fora uma semana.

Resolvemos voltar de Guarulhos e ir para a casa dos meus pais em Mogi das Cruzes, antes de retornarmos a São José dos Campos. Estacionei o carro em frente ao apartamento e entramos. Descansei, fiz minhas ligações para a Suécia, matei saudade da comida da mamãe e fomos retornar a São José. Quando chegamos à rua, surpresa:

- "Ué, cadê o nosso carro?", a Lucy perguntou.
- "Roubaram", respondi.
- "Como assim roubaram?!"
- "Roubaram, não tá vendo?"
- "Erico, isso não pode estar acontecendo..."
- "Já aconteceu."

Foi meu primeiro carro zero km. Lembro-me do dia em que comprei, a moça da Ford havia dito: "O Ford Ka é muito difícil roubar, pois não dá pra fazer ligação direta". Sei... O mais chato é que eu tinha acabado de fazer aquela revisão dos R$850,00.

Agosto:

Mês do desgosto, é o que dizem. Empurramos todas as contas para setembro. Mas não podemos reclamar de nada. Vou pro trabalho de Mercedes todo dia, com direito a chofer. Em geral tenho que brigar para conseguir entrar, e às vezes viajo nos degraus, mas tudo bem. E no fim de semana os irmãos da igreja nos ajudam com caronas. O pastor de nossa igreja em São José até passou a nos emprestar seu único carro todo domingo:

- "Tem certeza, pastor? Do jeito que as coisas andam é meio arriscado...", eu disse a ele.
- "Descansa o coração, Erico. É um prazer ajudar."

Setembro:

Minha esposa já trabalha há quase dois meses como pianista de um côro da cidade e ainda não recebeu seu salário. Razões burocráticas. Além disso, para conseguir este emprego ela teve que registrar um CNPJ. Mas um erro no processo de registro pela internet fez com que ela contraísse uma dívida mensal de R$30,00 desnecessária. E parece ser bem complicado de consertar.

Domingo passado:

Estávamos indo para a igreja com o carro do pastor. Pista dupla, trânsito tranquilo. Segui pela pista da direita. A certa altura, o trânsito da pista da esquerda parou. Eu seguia tranquilo pela direita quando ouvi o canto de pneus do meu lado:

- Riinch...CRASH!!!

Um carro na esquerda não conseguiu parar a tempo e, para evitar bater de frente, jogou o carro para a direita com tudo e nos atingiu.

- "Erico, Deus está no controle. A gente não fez nada errado", disse a Lucy.

Paramos um pouco mais à frente para contabilizar o prejuízo. Não foi forte, mas raspou toda a lateral do Gol G-5 do pastor. Deve ficar em uns R$1000,00, espero que o outro motorista pague. Mas de qualquer jeito, uma batida é sempre um transtorno, principalmente quando o carro é emprestado.

Após trocarmos os dados de cada motorista, segui para a igreja, conversei com o pastor e ele disse, calmamente: "descansa o coração, Erico".

Durante o período de louvor, ergui os braços o mais alto que pude e cantei com gosto:

"Porque dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas...A Ele a glória, a Ele a glória, a Ele a glória..."

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Israel de Deus


Prove, com apenas uma palavra, que a Bíblia é a Palavra de Deus. Prove que o Deus da Bíblia é o verdadeiro e que todos os demais livros sagrados são nada perto da Bíblia.

Desistem?

A resposta: "Israel".

Tudo bem, se você é Cristão, poderia ter pensado em "Cristo", "Ressurreição", "Profecias", etc. Você poderia dizer "Daniel", pensando no capítulo 9, que prevê a data exata da morte de Cristo (como comentado aqui). Mas hoje eu quero me concentrar em Israel, a Nação escolhida. Nenhum outro povo tem sido tão detestado e perseguido ao longo da história por tantos povos distintos. Nos tempos de Moisés, o faraó do Egito decretou a morte de todos os bebês hebreus do sexo masculino. Herodes fez o mesmo nos tempos de Cristo. Babilônios e romanos destruíram Jerusalém em épocas distintas. Católicos romanos perseguiram os judeus na Europa durante a Idade Média, acusando-os de praticarem "Deicídio", por terem matado Jesus. Dentre os protestantes, Lutero promoveu o anti-semitismo escrevendo o livro "Sobre os judeus e suas mentiras". Durante a época da peste negra, no século XIV, que matou mais de um terço da população da Europa, os judeus foram os bodes expiatórios, sendo acusados de envenenarem as fontes de água. Centenas de comunidades judaicas foram destruídas e muitos foram queimados vivos. Na Rússia, entre o final do século XIX e início do século XX, centenas de milhares de judeus foram mortos. Finalmente, Hitler propôs a "Solução final" para o problema judeu: extermínio total da etnia. Foram mortos seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Houve muitas outras perseguições, que você pode achar documentadas aqui.

E por que isto "prova" a Bíblia? Três razões:

1) A Bíblia afirma que Israel seria perseguido e espalhado pela terra:

"Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do Senhor teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão:...O Senhor te fará cair diante dos teus inimigos; por um caminho sairás contra eles, e por sete caminhos fugirás de diante deles, e serás espalhado por todos os reinos da terra.", Dt 28:15,25

2) Apesar disso, a Bíblia garante que Israel é indestrutível:

"Porque assim diz o Senhor: Nunca faltará a Davi homem que se assente sobre o trono da casa de Israel; Nem aos sacerdotes levíticos faltará homem diante de mim, que ofereça holocausto, queime oferta de alimentos e faça sacrifício todos os dias. E veio a palavra do Senhor a Jeremias, dizendo: Assim diz o Senhor: Se puderdes invalidar a minha aliança com o dia, e a minha aliança com a noite, de tal modo que não haja dia e noite a seu tempo, Também se poderá invalidar a minha aliança com Davi, meu servo, para que não tenha filho que reine no seu trono; como também com os levitas, sacerdotes, meus ministros.", Jr 33:17-21 (escrito na época da derrota para o rei da Babilônia)


Muitos evangélicos acham que estas e outras profecias não se aplicam mais a Israel e que se cumprem simbolicamente na Igreja. A Igreja "roubou" todas as profecias que a Bíblia reservou para Israel. Com isto, a Igreja elimina da Palavra de Deus seu elemento profético mais impressionante, ou seja, o cumprimento literal das profecias sobre Israel, o Messias e o Reino de Deus. Mais sobre este assunto em um próximo post.

Alguns alegam que o povo judeu não existe mais, que na verdade sua linhagem se perdeu em meio a inúmeras miscigenações. Mas esta teoria já foi desmentida pelo New York Times, conforme artigo de Marcos Guterman, do Estado de São Paulo.

3) A Bíblia garante que Israel habitará em segurança na Terra Santa.

"Dize-lhes pois: Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu tomarei os filhos de Israel dentre os gentios, para onde eles foram, e os congregarei de todas as partes, e os levarei à sua terra. E habitarão na terra que dei a meu servo Jacó, em que habitaram vossos pais; e habitarão nela, eles e seus filhos, e os filhos de seus filhos, para sempre, e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente. E os gentios saberão que eu sou o Senhor que santifico a Israel, quando estiver o meu santuário no meio deles para sempre.", Ez 37:21,25,28

Esta profecia é tão clara que levou Charles Spurgeon a pregar, em 1864, um sermão intitulado "A restauração e conversão dos judeus", em que ele previu que Israel um dia se tornaria novamente uma nação politicamente organizada na Terra Santa. Nas suas palavras:

"Haverá uma restauração política dos judeus. Israel encontra-se expulsa do mapa das nações. Seus filhos estão distantes e espalhados... Não há rei em Jerusalém!...Mas ela será restaurada 'como que a partir dos mortos'...Ela será reorganizada...haverá um governo nativo novamente. Haverá, novamente, a forma de um corpo político. Um estado ganhará corpo e um rei reinará. Israel agora está alienada de sua própria terra. Seus filhos...morrem a uma distância enorme de suas praias consagradas. Mas não será assim para sempre...'Eu os colocarei em sua própria terra' é a promessa de Deus para eles. "

Esta parte da profecia só foi começar a se cumprir 84 anos depois, quando o Estado de Israel foi criado em 1948 por decisão da ONU. Glória a Deus por Spurgeon ter se mantido fiel ao texto, mesmo sem ver sinais de seu cumprimento.

Muito se discute sobre a legitimidade do atual Estado de Israel. Dizem que sua criação foi artificial e que foi injusta com os palestinos. Que Israel deveria devolver territórios anexados posteriormente na guerra dos seis dias, em 1967. Que Israel reage desproporcionalmente aos ataques terroristas que sofre frequentemente. Que os judeus manipulam a opinião dos Cristãos americanos para que estes apóiem Israel. Não tenho interesse em discutir aqui o que é politicamente correto ou não neste caso. Penso que em meio a tantas acusações, as pessoas estão perdendo o foco daquilo que é mais importante. As profecias estão se cumprindo literalmente. Israel ainda é um corpo sem espírito, pois rejeitam o Messias, mas os "ossos já se juntaram" e a "carne" os está cobrindo. E é Deus quem está fazendo isto, mesmo que seja pelas mãos de homens ímpios. Isto já aconteceu no passado e gerou revolta nos povos vizinhos:

"NO primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia (para que se cumprisse a palavra do Senhor, pela boca de Jeremias), despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo: Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá. Quem há entre vós, de todo o seu povo, seja seu Deus com ele, e suba a Jerusalém, que está em Judá, e edifique a casa do Senhor Deus de Israel (ele é o Deus) que está em Jerusalém. E todo aquele que ficar atrás em algum lugar em que andar peregrinando, os homens do seu lugar o ajudarão com prata, com ouro, com bens, e com gados, além das dádivas voluntárias para a casa de Deus, que está em Jerusalém.", Ed 1:1-4

Não só o Rei Ciro autorizou os judeus a voltarem para Jerusalém, como os povos vizinhos teriam que doar sua prata e seu ouro para que os judeus construíssem o templo. Isto é injusto! Os outros povos não podiam ser obrigados a custear a construção de um templo para um Deus em quem eles nem acreditavam! Mas é o que Deus fez para que se cumprisse a profecia de Jeremias. Deus tem compromisso com Sua Palavra e com Seu povo. E o que Ele decretou se cumprirá, doa a quem doer. Isso pra não falar do que Deus fez para colocar Israel na Terra Prometida da primeira vez, quando Ele expulsou os habitantes naturais de lá para que Israel ocupasse o seu lugar. Que "injustiça" da parte de Deus!

A profecia de Ezequiel 37 se cumprirá plenamente no futuro, quando Israel tiver vitória sobre seus inimigos, se arrepender de sua incredulidade e receber Jesus como o Messias judeu. Então se cumprirá o que disse o profeta Jeremias:

"Eis que eu os congregarei de todas as terras, para onde os tenho lançado na minha ira, e no meu furor, e na minha grande indignação; e os tornarei a trazer a este lugar, e farei que habitem nele seguramente... E farei com eles uma aliança eterna de não me desviar de fazer-lhes o bem; e porei o meu temor nos seus corações, para que nunca se apartem de mim. E alegrar-me-ei deles, fazendo-lhes bem; e plantá-los-ei nesta terra firmemente, com todo o meu coração e com toda a minha alma.", Jr 32:37,40-41

domingo, 31 de julho de 2011

Eu sou burro

O medo do ridículo é uma das coisas que mais impede os cristãos de agirem como cristãos. Em particular, o medo de que os outros saibam que cremos nas coisas que cremos. Medo de que descubram que nossa visão de mundo é completamente diferente do que os outros ensinam. Alguns tentam apaziguar os intelectuais elaborando teorias de interpretação Bíblica que estejam de acordo com uma descrição científica da criação. Eu entendo a tentativa, desde que se respeite o texto Bíblico. Mas, sejamos francos, estas idéias nunca serão aceitas no meio acadêmico e você nunca vai ser respeitado intelectualmente por causa disso, a menos que negue tudo o que a Bíblia afirma a respeito de milagres.

Por exemplo, pode-se defender que a idéia de que a Terra é mais antiga do que 6.000 anos não é incompatível com a Bíblia, como discutimos em um post passado. O principal argumento para isto é encontrado na própria Bíblia, comparando Gênesis 1 com Gênesis 2. Argumentos observacionais (científicos) entram como complemento. No entanto, isto não irá impressionar os incrédulos e nossa autoridade final ainda é a Bíblia. Eu ainda acredito em milagres, no jardim do Éden, em uma serpente falante, no dilúvio, na torre de Babel, no dia longo de Josué, Jonas e o peixe, Deus nascendo de uma virgem, na ressurreição, no arrebatamento da igreja e na segunda vinda, Maranatha! (eu ouvi alguém dizendo "amém"?).

Existem poucas coisas mais patéticas do que um cristão gaguejando para tentar esconder que acredita em tudo isto só para parecer mais inteligente perante os homens sem Deus. De certa maneira, é pior do que aquele que realmente não acredita, pois ele pelo menos é sincero. Eu não sei explicar como aconteceram as coisas que a Bíblia descreve, mas sei que aconteceram. É verdade que devemos ter cautela antes de ensinarmos ciência baseada no Texto Sagrado, pois a Bíblia não se comunica conosco em linguagem científica, como discutimos em outro post. Mas não negamos a veracidade dos acontecimentos e o tempo costuma atestar a precisão dos relatos Bíblicos por meio da arqueologia.

Aquele que confia na Palavra de Deus não será confundido. Sua fé será honrada, nem que seja no dia da revelação da glória de Jesus:

I Pe 1:7 - "para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo;"

Lembre-se do que Jesus disse a Tomé:

Jo 20:29 - "Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram."

E lembre-se de que os sábios da época debocharam de Paulo no areópago em Atenas.

At 17:32 - "Mas quando ouviram falar em ressurreição de mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos ainda outra vez."

Não negamos os benefícios trazidos pela ciência e somos grandemente devedores aos esforços de cientistas que investiram suas vidas para melhorar a nossa qualidade de vida e trazer respostas sobre o desconhecido, mas os sábios deste mundo se enganam quando se voltam contra Deus e Sua Palavra. Como disse Paulo:

I Co 1:18-20,26 - "Porque a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o questionador deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?... Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos. nem muitos os nobres que são chamados."

I Co 3:18-20 - "Ninguém engane a si mesmo; se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia; e outra vez: O Senhor conhece as cogitações dos sábios, que são vãs."

E nós ainda queremos impressionar estes caras com nossa teologia?

sábado, 25 de junho de 2011

Evolução


Dizem que geneticamente o ser humano é 97% igual ao macaco (chimpanzé? Gorila?). Olhando bem, não parece. Não entendo nada de genética nem de biologia, mas parece evidente que existe algo além dos genes que diferencia humanos de animais. Como não entendo nada deste assunto, não vou me estender neste post. Nunca li “A origem das espécies” nem “A caixa preta de Darwin”. Ainda que haja certa forma de evolução no reino animal, não acredito que os humanos evoluíram dos primatas porque, falando como leigo, a teoria me parece, na ausência de intervenções divinas, incapaz de explicar porque somos tão diferentes de todos os animais. Não preciso nem me delongar nesta parte, afinal, fomos nós que mandamos um macaco pro espaço e não vice-versa (tudo bem, concordo que fui leviano neste comentário). Em segundo lugar, a Bíblia diz que Deus formou o homem à sua imagem e semelhança, do pó da terra. Alguns teólogos que acreditam em evolução acham que Deus usou um macaco como protótipo. Porém, só porque a matéria prima é a mesma e a estrutura física/genética é parecida não implica necessariamente em evolução. Afinal, os seres celestiais se parecem conosco e não me consta que tenha havido evolução no céu (isso foi uma piada sem graça). Mas, seja como for que se creia que Deus criou o corpo do homem, a maior diferença certamente está na parte espiritual. Somente o homem cultua seu Criador. E existe uma explicação Bíblica para isto.

Gênesis 2:19 diz que todos os animais foram formados do pó da terra e todos são chamados de alma vivente (“nephesh”, no hebraico). A respeito do homem, Gn 2:7 também diz que este foi feito alma vivente (“nephesh”). Além disso, o mesmo verso diz que Deus soprou em suas narinas o “fôlego da vida” (“neshamah” = fôlego, espírito). Os animais também têm um fôlego, mas existe alguma diferença entre a alma vivente dos animais e o espírito humano. Creio que é isto que faz com que sejamos a imagem de Deus. Somos uma criação à parte. Depois da formação do homem, Deus parou com seus atos de “criação especial” e deixou a natureza correr seu curso natural, que é a forma como eu entendo que ele “descansou” no sétimo dia da criação. Não significa que Ele não opere milagres ainda hoje, mas que Ele não cria nenhuma outra espécie da forma como criou no princípio. As novas espécies aparecem hoje por processos puramente naturais.

O que dizer dos fósseis de hominídeos? Australopitecus, homo erectus, neanderthal, cro-magno, etc.? Podemos separar 3 diferentes explicações dos Cristãos para tais fósseis:

1 – Posição naturalista e evolução teísta: afirmam que os fósseis provam a teoria da evolução, portanto, o homem evoluiu dos primatas. Alguns acham que não existe espírito, somos apenas corpo evoluído e energia. Outros acham que em algum momento no processo evolutivo, Deus colocou o espírito no homem. É como se Adão acordasse um dia, olhasse pra sua mãe e dissesse: “quem é essa macaca?” Alguns acham que o homem (homo sapiens) teria aparecido há uns 150 ou 200 mil anos atrás, baseado na datação dos fósseis por métodos de decaimento radiativo (ex. Dr. Hugh Ross, do Reasons do Believe). Outros preferem ficar com a cronologia Bíblica pós-Adão e creem que o homem apareceu há aproximadamente 6000 anos. Qualquer outro hominídeo que houve antes disso não era um homem (não tinha um espírito humano), por mais evoluído que fosse (ex. Dr. Gerald Schroeder, PhD MIT).

2 – Outra posição acredita que nenhum dos primatas antigos foi ancestral do homem. Eles eram apenas animais que foram extintos com o tempo. O homem foi criado de maneira especial por Deus e colocado em um paraíso na terra chamado Éden há 6000 anos atrás. As pinturas antigas, atribuídas a homens das cavernas, teriam sido feitas por descendentes de Adão após a queda. Os que defendem esta teoria argumentam que a datação de fósseis e artefatos reconhecidamente humanos com mais de 10000 anos está errada.

3 – A terceira posição argumenta que todos os fósseis (dinossauros, primatas e humanos) têm menos de 10000 anos e a datação científica de todos eles está errada. A terra é nova e, portanto, estes primatas não têm nada a ver com o homem e se extinguiram no dilúvio na época de Noé.

Eu me identifico mais com a segunda posição acima, mas não me considero apto para discutir a parte científica deste assunto.

Pra terminar, uma curiosidade. Você já deve ter visto algum quadro semelhante à figura abaixo:


Esta figura mostra alguns dos estágios da suposta evolução do homem, como se fosse sua árvore genealógica. Se algum dia você tiver a oportunidade de visitar o Museu de História Natural de Londres, vá até a seção de fósseis de hominídeos. Eles estão todos lá. Na vitrine dos crânios você vai ver uma placa com os dizeres: “Relatives? Yes. Ancestors? No”, traduzindo, “Parentes? Sim. Ancestrais? Não”. O que isto significa? Significa que a figura acima está errada até mesmo para biólogos não-cristãos e os livros de escola precisam ser atualizados. Os biólogos não acham mais que o homem evoluiu a partir do australopitecus, homo erectus, neanderthal ou qualquer outro destes. Eles acham que o homo sapiens e estes outros hominídeos devem possuir um ancestral comum em algum lugar no passado, mas este ancestral ainda não foi encontrado. É o chamado “elo perdido” (se tiver algum biólogo lendo isto e achar que eu estou falando besteira, pode me corrigir. Estou apenas repassando a informação que peguei diretamente num poster no museu de Londres). Até 2009 o candidato mais provável para elo perdido era o sujeitinho abaixo, Darwinius masillae, um macaquinho com alguns centímetros de altura e cauda longa, que parece ter vivido há algumas dezenas de milhões de anos. Também está no mesmo museu.

 
 p. s.  Uma atualização das informações finais deste post, incluindo recentes descobertas publicadas na Nature, pode ser encontrada no post Evolução II.

sábado, 18 de junho de 2011

Gênesis




Continuando o post passado, abaixo eu relaciono algumas outras interpretações existentes para Gênesis 1. Algumas delas eu considero inaceitáveis, outras não. Lembrando que a interpretação 1 é a “estritamente literal”, mostrada anteriormente.

Interpretação 2 - A Lenda

O céu, ou firmamento, é uma abóbada rígida onde as estrelas estão presas? Existe água acima deste firmamento? A água escorre por buraquinhos no firmamento quando chove? Assim já é demais, isto só pode ser uma lenda! Assim é que alguns teólogos liberais enxergam o relato Bíblico. Acham que os hebreus apenas copiaram lendas pagãs sobre a criação, o texto não tem nada de inspirado.

Interpretação 3 - Parábola

Semelhante à anterior, acha que o relato é apenas uma parábola para dar alguma lição espiritual (separação entre luz e trevas, ordem a partir do caos, Deus criou tudo com um propósito, etc.). Defensores desta posição creem que o texto é inspirado, mas não tem nada de científico e não serve para saber como Deus criou o mundo. Alguns comentaristas defendem que Deus usou as crenças da época apenas para ensinar os hebreus que Ele criou todas as coisas. Assim, se as pessoas acreditavam que o céu era rígido e tinha um reservatório de água além das estrelas, Deus não as corrigiu, apenas disse: “fui eu que fiz isto”. O problema desta interpretação é que parece transformar Deus em cúmplice de uma mentira.

Interpretação 4 - Intervalo

Na teoria do intervalo (“gap theory”), existe um período de tempo indeterminado entre Gn 1:1 e Gn 1:2. Há bilhões de anos atrás, Deus teria criado os céus e a terra, com dinossauros e outras criaturas. Mas um evento catastrófico destruiu o planeta e a terra ficou sem forma e vazia. Deus, então, iniciou o processo de re-criação em seis dias a partir do verso 3. Isto possibilita que o texto seja interpretado literalmente e ainda assim permite que a Terra tenha bilhões de anos, explicando o registro fóssil como dizem a maioria dos cientistas. Em princípio, parece-me forçado demais concluir que existia uma terra em Gn 1:1 e outra em Gn 1:2 só porque “a terra era sem forma e vazia” talvez pudesse ser traduzido como “a terra tornou-se sem forma e vazia”. Esta teoria foi muito popular no século XX, mas parece que perdeu fôlego com o passar dos anos.

Interpretação 5 - Dias "FIAT"

"Fiat" é uma palavra em latim que significa “haja”. Assim, “Fiat lux” significa “haja luz”. Segundo a teoria dos dias fiat, Gênesis 1 é inspirado por Deus, mas não descreve a duração nem a ordem dos eventos da criação no referencial da terra, mas sim do céu. Explicando melhor, o texto descreve o que se passa no céu, onde Deus declara “haja...” durante seis dias celestiais (seja lá o que isto signifique). Assim, no primeiro dia, Deus disse “Fiat lux” e ficou decretado que haveria luz no universo. As coisas não são formadas aqui na terra necessariamente no mesmo instante nem na mesma ordem em que foram declaradas por Deus, pois o texto refere-se ao tempo celestial e não terrestre. Assim, quando Ele diz no quarto dia “Haja luminares na expansão dos céus”, não quer dizer que as estrelas foram formadas depois da terra. Apenas sua criação foi ordenada por Deus no quarto dia celestial. Quando isto se cumpriu, não é importante. Não sei se expliquei de maneira clara, mas acho que vocês pegaram a ideia.

Interpretação 6 – Dias relativos

Esta teoria foi apresentada pelo Dr. Russell Humphreys no livro “Starlight and time” (“A luz das estrelas e o tempo”) e concentra-se em responder à pergunta: “se o universo tem apenas alguns poucos milhares de anos, como conseguimos enxergar a luz de estrelas que se encontram a bilhões de anos luz da terra?” O problema é que se a velocidade da luz é constante, aproximadamente 300.000 km/s, deveria levar bilhões de anos para a luz destas estrelas chegar até nós. Como conseguimos enxergá-las, isto quer dizer que o universo tem bilhões de anos. Uma maneira de tentar resolver este problema, mantendo a fé em um universo jovem, é dizer que a velocidade da luz era mais rápida no início e depois caiu bruscamente. Mas, a velocidade constante da luz é uma “vaca sagrada” da ciência e não pode ser tocada. Outra tentativa, defendida pelo Dr. Humphreys, baseia-se na teoria da relatividade de Einstein, que diz que o tempo é relativo e passa mais rápida ou mais lentamente de acordo com o referencial onde é medido. Na teoria de Humphreys, a Terra tem 6 mil anos e a fronteira final do universo tem bilhões de anos. Se considerarmos o universo como um espaço tridimensional com a Terra aproximadamente no centro, durante a criação um relógio localizado na terra teria marcado seis dias, mas um relógio localizado na fronteira do universo teria marcado os bilhões de anos necessários para a luz das estrelas mais distantes chegar até a terra no dia 4 da criação. Esta teoria é pouco popular pois, obviamente, poucos são capazes de entendê-la e só físicos experientes podem avaliar se o Dr. Humphreys cometeu erros ou não em seus cálculos. De qualquer jeito, a teoria é fortemente criticada até mesmo por físicos criacionistas.

Interpretação 7 - Dias longos

Existem várias versões que consideram que a palavra “dia” no capítulo 1 de Gênesis refere-se a um longo período de tempo, que pode ter até milhões ou bilhões de anos. Alguns aceitam a teoria da evolução das espécies de Darwin e outros a rejeitam, mas este é assunto para outro post. Aqui, vou resumir a posição proposta por Gerald Schroeder, físico judeu que baseou-se nos escritos dos antigos rabinos e na teoria do Big Bang para interpretar o Gênesis, que ele acredita ser inspirado por Deus. Apesar de ele não ser Cristão e defender alguns pontos de vista estranhos a respeito da origem das espécies, é interessante considerar uma posição defendida por um adepto do Judaismo. Vale observar que existem diferentes linhas teológicas dentro do Judaismo, sendo que a maioria dos judeus ortodoxos defende a interpretação estritamente literal, comentada no post anterior.

Schroeder baseia-se principalmente nos escritos de dois rabinos famosos do século XIII, Namânides e Maimônides, que escreveram muito antes de qualquer teoria semelhante ao big bang ser apresentada pelos cientistas. Namânides diz, em seu comentário sobre a Torá:

“No ínfimo instante após a criação, toda a matéria do Universo estava concentrada em um lugar mínimo, não maior do que um grão de mostarda. A matéria era tão tênue, tão intangível, que não chegava a ser verdadeiramente substancial. Possuía, no entanto, o potencial de adquirir substância e forma, e de tornar-se matéria tangível. A partir da sua concentração inicial num ponto diminuto, essa substância intangível expandiu-se e, com ela, expandiu-se também o Universo. Prosseguindo a expansão, ocorreu uma mudança substancial, e a substância inicialmente incorpórea assumiu os aspectos palpáveis da matéria tal como a conhecemos. Deste ato inicial da criação, desta pseudo-substância tênue e etérea, tudo o que existiu, existe e existirá foi, é e será formado.”

Namânides também diz que somente no dia 1 a matéria foi criada a partir do nada. Namânides diz que antes da criação, o tempo não existia. Maimônides, em seu “Guia para os perplexos”, completa, dizendo que antes da criação, o espaço não existia.

Uma sequência de eventos da criação usando a idéia de dias longos fica mais ou menos assim:

Gn 1:1 - o universo é criado, a partir do “grão de mostarda”.

Gn 1:2 - ser “sem forma e vazia” significa que a terra ainda não havia sido formada realmente, havia apenas a substância a partir da qual ela seria moldada, ou seja, o “caldo primordial” sem forma, constituído de partículas sub-atômicas e energia. As “trevas sobre o abismo” significam que os fótons de luz estavam em constante colisão com os elétrons livres no caldo e esta mistura entre luz e matéria fez com que o universo primordial fosse escuro. Schroeder acha que o texto se refere às condições de um super buraco negro logo após a criação. Por falta de um termo melhor em hebraico, a substância primordial da qual toda a matéria seria formada é chamada de “águas” no verso 2. O Espírito, ou vento, de Deus é o que teria causado a expansão.

Gn 1:3-4 - “Haja luz”, ocorre quando o universo se esfria, os átomos são formados e a luz se separa da matéria, havendo separação entre luz e trevas.

Gn 1:5 - “E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.” Note que a palavra “dia” refere-se tanto à luz quanto ao período de tempo “tarde e manhã”. Citando Namânides, Schroeder diz que a palavra hebraica para “tarde” é “ereb”, cuja raiz também pode significar “confuso, misturado, desordenado”. A palavra para “manhã” é “boker”, cuja raiz pode ser entendida como “discernível, ordenado”. Assim, “tarde e manhã” pode significar que a cada dia da criação ocorre uma mudança de “caos” para “ordem”. Esta ideia é contestada pelos críticos desta teoria, mas como não entendo nada de hebraico, não posso opinar. Segundo o dicionário Strong, “ereb” pode significar “tarde, misturado, etc.” e sua raiz é “arab”, que significa “anoitecer, escurecer”. “Boker” significa “manhã” e a raiz da palavra é “bakar”, que significa “buscar, procurar”.

Gn 1:6-8 - Deus cria a expansão/firmamento, ou céus, e separa águas acima e abaixo da expansão. Agora, o termo hebraico para “água” assume seu significado atual. A palavra “expansão” ou “firmamento” em Gênesis significa tanto a atmosfera, onde existe separação entre águas, quanto o espaço sideral, onde estão as estrelas. Pode ser que os antigos imaginassem a abóbada celeste como algo rígido onde as estrelas estavam presas. Isto não quer dizer que é isto que a Bíblia está ensinando, apenas foi empregado um termo conhecido na época para se referir aos céus.

Gn 1:9-13 - No terceiro dia, Deus cria os mares, os continentes e as plantas. As plantas necessitam de luz para viver, mas o sol só aparece no quarto dia. Então, como as plantas podem sobreviver sem sol se o terceiro dia durar milhares de anos ou mais? A resposta proposta é que a esta altura o sol e as estrelas já existiam. Contudo, até aqui a atmosfera da terra estava envolta por densas nuvens de vapor que impediam que o sol fosse visível a partir da terra:

“Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Quando eu lhe pus nuvens por vestidura, e escuridão por faixas,” Jó 38:4,9

Com o aparecimento da vida vegetal, a fotossíntese removeu os compostos de carbono e nitrogênio da atmosfera, permitindo que o sol, a lua e as estrelas se tornassem visíveis no dia 4.

Gn 2:14-19 - Os luminares se tornam visíveis e Deus atribui a eles o papel de servirem para governar o dia e a noite e marcar as estações. Esta parte pode ser contestada, pois o texto diz que Deus fez os luminares e os pôs na expansão, não que Ele os tornou visíveis, removendo uma névoa.

Gn 2:20-23 - Com o sol visível, a Terra está pronta para receber a vida animal. A vida começa na água, espalhando-se, em seguida, pelos ares. Note que esta sequência é contrária à teoria da evolução, que afirma que a vida se espalhou da água para a terra e depois para os ares.

Gn 2:24-31 - Deus cria os animais terrestres e o homem.

Após a criação do homem, Schroeder considera que se passaram aproximadamente 6000 anos, conforme a cronologia Bíblica. Algumas variações desta teoria encaram que o planeta Terra já estava formado no verso 1 e os próximos versos descrevem a preparação da terra para receber a vida, basicamente seguindo a sequência acima.

Uma das dificuldades da teoria dos dias longos é que é necessário que haja mortes no mundo antes mesmo da formação e queda do homem, sendo que a Bíblia diz que a morte entrou no mundo pelo pecado (Rm 5:12). A resposta é que a morte HUMANA entrou no mundo pelo pecado, “a morte passou a todos os HOMENS por isso que todos pecaram.”, mas nada impede que já houvesse morte de animais antes. Com certeza já havia morte de plantas e frutas antes da queda, por que não de animais? De qualquer jeito, o Éden seria um lugar especial na terra; como a maldição pós-queda afetou o solo e a vida animal fora dele é assunto de especulação.

Conclusão

Todas estas teorias têm suas dificuldades e o modelo científico apresentado nas universidades também tem. Questões ainda sem resposta permanecem e deveríamos ser cautelosos antes de tirar conclusões definitivas sobre estes assuntos. A Bíblia é clara sobre a vontade de Deus para o homem, mas não tem intenção de ensinar ciência e o ensino sobre as origens foi dado em uma linguagem simples e com poucos detalhes, de forma que pudesse ser compreendida por qualquer pessoa em qualquer época. Simplesmente temos que admitir que não sabemos com certeza como foi que Deus criou o universo. Eu respeito quem tenta encontrar uma resposta que reconcilie a ciência e a fé, mas quando a ciência colide com um ensino claro do texto, eu fico com a fé. Prefiro ficar com o texto como está, apenas entendo que podemos ser flexíveis quanto à duração dos dias. Pode ser que Deus tenha usado o termo "dia" para simplificar a narrativa, afinal de contas, se eu não consigo assimilar hoje o que são bilhões de anos, como Moisés poderia?

p. s. Atualização deste post em: Gênesis 1 e 2 de novo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Big Bang



Conforme prometido, vou começar a discutir algumas possíveis interpretações para os primeiros dois capítulos de Gênesis e como eles devem ser aceitos, apesar dos ataques da ciência secular. Minha intenção aqui não é apresentar bases científicas para o texto, apesar de que faremos um pouco disto. No final das contas, acreditamos na Bíblia porque o Espírito nos convence de que ela é a verdade, como comentei no post "Por que sou um Cristão?". Também não tenho a pretenção de apresentar a interpretação definitiva do texto, pois foi escrito em uma linguagem simples e com poucos detalhes. Vou fazer apenas um apanhado geral das teorias e deixar o veredito com o leitor. Tenho ouvido de pessoas que abandonaram a fé cristã que professavam por causa de dúvidas quanto à coerência científica da Bíblia, mas também conheço pessoalmente outros (biólogos e astrônomos) que eram ateus e se tornaram Cristãos após estudarem o livro de Gênesis. No final das contas, a pessoa crê se tiver fé e endurece o coração se não tiver. E sem fé é impossível agradar a Deus.

Primeiro, vou resumir o modelo mais aceito hoje pelos cosmólogos, conforme apresentado por Malcolm Longair, ex-professor de Física da Universidade de Cambridge. Vou gastar um pouco de tempo com esta descrição porque certos detalhes serão importantes para entender algumas das interpretações de Gênesis 1 a serem apresentadas no próximo artigo.

Big Bang, modelo padrão

Até onde se pode observar, o universo encontra-se em expansão, com as galáxias afastando-se umas das outras, sendo que a velocidade com que uma galáxia se afasta da nossa é proporcional à sua distância (Lei de Hubble). Segundo esta teoria, se pudéssemos viajar ao passado, veríamos o universo se comprimindo cada vez mais, com o espaço se reduzindo até chegar a um ponto, antes do qual o tempo e o espaço simplesmente não existem. Este ponto, chamado de singularidade, é onde o tempo e o espaço começam. Alguns cientistas têm um problema com a idéia de que haja um começo da criação. Preferem imaginar que o universo sempre existiu e que antes do instante inicial havia outros universos se expandindo e comprimindo infinitamente. Esta idéia de um universo sem início é conveniente para aqueles que não acreditam em Deus, pois se houve um começo de tudo, é necessário alguém para iniciar o processo. Mas a idéia de um universo sem começo não é a posição mais aceita pelos cientistas. No modelo padrão do big bang, admite-se que houve um início, mas não se sabe o que havia no instante zero, apenas tentam entender o que aconteceu logo após este instante e daí em diante.

No início, há aproximadamente 13,7 bilhões de anos, a maior parte da massa do universo se encontrava na forma de radiação. A altíssima temperatura da radiação impedia que as partículas elementares se associassem para criar os núcleos dos átomos que compõem a matéria comum. Assim, radiação e matéria estavam fortemente ligadas em uma "sopa primordial". Quando o universo se expandiu, a temperatura começou a cair. A queda de temperatura permitiu a associação de partículas elementares para a formação de outras partículas. Algumas centenas de milhares de anos depois, a temperatura caiu para 4000K e prótons e elétrons puderam se ligar para formar os primeiros átomos de hidrogênio e hélio. Nesta época, a matéria se separou da luz (ou seja, da radiação).

Algumas centenas de milhões (ou poucos bilhões) de anos se passaram até que a atração gravitacional entre partículas em nuvens moleculares foi capaz de gerar as primeiras estrelas. O interior das estrelas funciona como "fornos" para a produção de elementos pesados como carbono e ferro através de fusões nucleares. Quando o combustível necessário às reações nucleares se esgota, o interior da estrela sofre um colapso catastrófico devido à gravidade, e o processo pode gerar uma imensa explosão que expele os elementos pesados no espaço (esta é a chamada "poeira de estrelas"). No lugar da estrela morta, pode surgir um outro tipo de estrela ou um buraco negro. A Terra teria se formado há 4 bilhões de anos, contendo elementos pesados provenientes da poeira de estrelas.

A teoria do Big Bang tem sofrido muitas modificações ao longo dos anos e é possível que não resista ao teste do tempo durante o século XXI. A Ciência é assim mesmo, novas descobertas fazem idéias antigas ficarem obsoletas com frequência. Os homens são rápidos em anunciar que descobriram as respostas para as origens do universo, mas, com o passar do tempo, muitas vezes acabam tendo que se retratar. Somente a Bíblia pode nos fornecer a verdade absoluta sobre a criação. Por isso mesmo, não é prudente "amarrar" a interpretação do texto Bíblico a alguma teoria científica que não tenha sido absolutamente comprovada, pois assim que a teoria cair em descrédito, a interpretação também cairá. No entanto, as descobertas científicas podem lançar luz sobre o entendimento de alguns aspectos do texto Bíblico. Assim, vamos observar o que diz Gênesis 1 e quais são algumas possíveis interpretações.

Interpretação 1: Estritamente literal

No princípio, Deus criou os céus e a terra. Os céus não possuíam estrelas e a terra era sem forma e vazia. Após isto, Deus criou a luz e o firmamento, modelou a terra, criou os animais, colocou as estrelas e a lua no firmamento e criou o homem. Tudo isto em 6 dias de 24 horas, há aproximadamente seis mil anos.

Uma visão estritamente literal de Gênesis 1 sugere que esta é a interpretação correta. Aliás, para os que levam a Bíblia a sério, pode parecer a única interpretação aceitável. Eu mesmo já considerei que qualquer outra interpretação seria heresia e achava que as pessoas que defendiam outras posições estavam comprometendo a inspiração e a inerrância das Escrituras. No entanto, hoje eu creio que algumas coisas no texto abrem a possibilidade para diferentes interpretações. Por exemplo, se os céus foram criados no princípio mas não tinham astros, o que havia neles? Se o sol só foi criado no quarto dia, o que era a luz que foi criada no primeiro dia? Esta luz parece ser responsável pela determinação de tarde e manhã nos primeiros dias, mas no quarto dia Deus diz que o sol governa o dia e a lua governa a noite. O que aconteceu com a luz do dia 1? No dia 6 Deus criou o homem, "homem e mulher os criou". Portanto, Deus criou Adão e Eva no sexto dia. Mas, segundo Gênesis capítulo 2, algumas coisas aconteceram neste sexto dia entre a criação de Adão e a criação de Eva:

- Deus plantou um jardim no Éden (Gn 2:8)

- Deus fez as árvores do jardim brotarem da terra (Gn 2:9). Note que nos versos 5 e 6 de Gn 2 as árvores não tinham nascido ainda, pois não havia chuva nem homem para lavrar a terra e uma neblina regava a terra. Isto indica que as árvores brotaram e cresceram por processos naturais, o que leva tempo.

- Deus tomou o homem e o colocou no jardim (Gn 2:15).

- Deus trouxe todas as aves e todo animal do campo a Adão e este deu nome a eles todos (Gn 2:19-20).

- Deus colocou Adão para dormir, tomou uma costela dele e formou uma mulher (Gn 2:21-22).

Parece que foi um longo dia para Adão. Além destes pontos, em Gn 2:2-3, Deus descansa no sétimo dia. No entanto, diferentemente dos outros dias, aqui não se diz que houve tarde e manhã. Até quando Deus descansou? Este sábado já terminou? Se, porventura, o último dia teve mais de 24 horas, porque os demais não poderiam ter? Afinal de contas, Gn 2:4 fala do "DIA em que o Senhor Deus fez a terra e os céus" referindo-se a todo o período da criação, não apenas a um dos seis dias.

Estas dúvidas não são necessariamente irrespondíveis e não invalidam esta interpretação. Mas eu acho que é lícito considerar alternativas. Faremos isto no próximo post, se Deus quiser.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Ciência e Fé



Fonte: http://www.gilessparrow.com/spaceart.html


No artigo anterior, mencionei três dos ataques mais comuns sofridos pelo cristianismo: o deboche dos ateus e sua descrença em Deus; a descrença no Cristo Bíblico e na ressurreição; e a descrença nas Escrituras por meio da crítica textual. Mas, o maior ataque de todos vem contra o livro de Gênesis e seus relatos da criação e de outros eventos, tais como o dilúvio e a torre de Babel. A visão de mundo Bíblica difere daquela apresentada pela maioria dos cientistas, tanto astrônomos quanto biólogos, geólogos, paleontólogos, etc. Será possível que estão todos errados em suas pesquisas? Será que a Bíblia é só um livro escrito por homens, baseado em relatos antigos, lendas e mitos? É claro que não cremos nisto, mesmo porque, Jesus acreditava plenamente no Gênesis e até fez menção de textos referentes a Adão, Eva e Abel (Mc 10:6-8, Mt 23:35). Mas, então, como responder à avalanche de evidências que parecem contradizer a Bíblia?
Vou fazer algo um pouco estranho agora. Vou fazer o papel de “advogado do diabo”, ou seja, vou apresentar uma série de fatos que ilustram a ignorância dos religiosos ao longo dos séculos com relação a assuntos científicos e como a Bíblia tem sido usada para defender mentiras. Vou fazer isto com um único objetivo: fortalecer suas convicções Bíblicas. Isto mesmo, vou combater a religião para fortalecer a fé. É necessário que eu faça isto, pois se eu não fizer, mais cedo ou mais tarde alguém vai lhe apresentar estes mesmos fatos para tentar destruir sua fé. Como você já os viu aqui, não vai ser pego desprevenido. Então, prepare-se que lá vai:
Antípodes é uma palavra usada para designar o outro “lado do mundo”, ou ainda “os habitantes do outro lado do mundo”. Durante muito tempo, antes de o homem ocidental descobrir a América, se discutia muito sobre a existência de habitantes nestas terras. Veja o que alguns clérigos andaram dizendo sobre este assunto: 
"É absurdo demais que alguns homens possam ter tomado um navio e atravessado o oceano inteiro e cruzado deste lado do mundo ao outro, e que até mesmo os habitantes daquela região distante sejam descendentes do primeiro homem.", Agostinho de Hipona (354-430 A.D.), A cidade de Deus, Cap. 9 
"Se há homens do outro lado da Terra, Cristo deve ter ido lá e sofrido uma segunda vez para salvá-los; e, portanto, deve ter havido lá, uma cópia duplicada do Éden, Adão, a serpente e o dilúvio.", Procópio de Gaza (465-528 A.D.) 
"Os apóstolos foram ordenados a ir a todo o mundo e pregar o evangelho a todas as criaturas; eles não foram a nenhuma parte do mundo tal como as antípodes; eles não pregaram para nenhuma criatura lá; logo, as antípodes não existem.", Tostatus, monge espanhol (1400-1455 A.D.) 
Aqui, a dificuldade de entender a soberania de Deus na salvação/perdição de pessoas que não ouviram falar de Jesus foi o motivo para que homens usassem a Bíblia para combater idéias científicas que depois se mostraram como fatos irrefutáveis, levando a uma reavaliação do pensamento teológico da época. 
Heliocentrismo é a idéia de que a Terra e os planetas do nosso sistema giram em torno do Sol, ao contrário do geocentrismo, que diz que o Sol e os planetas giram em torno da Terra. Durante muitos séculos, o geocentrismo dominou o pensamento humano, e os primeiros cientistas a pregarem o heliocentrismo foram duramente combatidos. Repare nas seguintes pérolas teológicas de alguns dos nossos heróis da fé: 
"As pessoas dão ouvidos a um astrólogo que se esforça para mostrar que a terra se move, e não os céus ou o firmamento, o Sol e a lua...Este tolo deseja reverter toda a ciência da astronomia; mas as sagradas Escrituras nos dizem que Josué disse para o Sol parar, não a Terra.", Lutero (1483-1546 A.D.) sobre Copérnico, defensor do heliocentrismo, citado em Theodore G. Tappert, editor and translator, "Table Talk," Luther's Works, Vol. 54, Philadelphia: Fortress Press, 1967, pp. 358-359. 
"Aqueles que dizem que a terra se move...[são] motivados por 'um espírito de amargura, contradição, e busca por erros'; possuídos pelo demônio, eles querem perverter a ordem da natureza.", João Calvino (1509-1564 A.D.), sermão no. 8 sobre 1 Coríntios, 677 
Hoje, o conhecimento da astronomia nos levou a reinterpretar o texto do dia longo de Josué como sendo apenas a descrição do ponto de vista de alguém em um referencial na terra. Logo, Josué viu o Sol parado e escreveu o que viu. Mas o que realmente aconteceu com o sistema solar naquele dia permanece um mistério. (Nota: dizem que os chineses têm em seus relatos históricos uma descrição de um dia longo na mesma época do dia de Josué, mas ainda estou procurando confirmação sobre esta informação). Nota-se que o objetivo da Bíblia não é ensinar mecânica celeste, mas relatar um fato com linguagem simples e glorificar a Deus por isto. Mas, alguns cristãos ainda não se conformam com isto: 
"Aos Cristãos e Judeus é apresentado um evento histórico real em Josué 10:12-14. Deus escreveu no verso 13 que "o sol se deteve, e a lua parou". Deus disse ou não disse... Deus não pode emitir uma inverdade e precisamos concluir que a Bíblia ensina, em Josué 10:13 e outras passagens, que o universo gira em torno da terra uma vez por dia, carregando o sol, a lua e as estrelas com ele, independetemente do que textos introdutórios de astronomia possam dizer...a escolha é entre a Bíblia e os textos introdutórios de astronomia: Em qual você vai acreditar?", The Association of Biblical Astronomy: www.geocentricity.com (2011)
Eu garanto que você nunca vai conseguir calcular com precisão as trajetórias dos planetas se adotar um ponto de vista geocentrista. Muitos tentaram durante séculos, mas fracassaram.
Sobre a explosão de estrelas (supernovas), que observamos hoje em imagens de telescópios:
"O pecado é o responsável pelas catástrofes cósmicas, tais como explosões de estrelas... Não havia morte de estrelas antes da queda.", Dr. Jonathan Henry, Prof. do Clearwater Christian College 
Como assim não havia supernovas antes da queda?! Onde está escrito isto? Eu sei que a criação geme por causa do pecado e o pecado trouxe a morte, mas o Dr. Henry está extrapolando a idéia, fazendo doutrina de algo que a Bíblia não diz.
Costuma-se dizer que a Bíblia propriamente interpretada e a ciência comprovada nunca irão se contradizer. Isto é verdade, mas existe um problema nesta afirmação: como você vai provar algo cientificamente além de qualquer dúvida razoável? Além disso, a fé explica quem criou o universo e porque estamos aqui; a ciência, por outro lado, tenta explicar como as coisas surgiram, sem se preocupar com o sentido da vida. Logo, a fé precisa ensinar que Deus interfere na criação por meio de milagres que desafiam as leis naturais. Só não sabemos exatamente quando e onde isto aconteceu. Por exemplo, que partes do mundo ou do universo foram criadas por Deus a partir do nada e que partes se formaram por causas naturais? A ciência não pode se utilizar de explicações que se baseiam em milagres que vão contra as leis naturais, pois se ela fizer isto não vai obter as respostas que está procurando. Por exemplo, se eu, como cientista, estou procurando descobrir como são formadas as estrelas, não posso simplesmente dizer: Deus criou as estrelas. Esta resposta é perfeitamente aceitável do ponto de vista da religião, mas para a ciência, ela não acrescenta muita coisa. Eu não aprendo nada sobre a física das estrelas com esta resposta. A pergunta permanece: como Ele criou as estrelas? Resposta: "Criou pela Sua palavra, ora". Sim, mas depois que Ele falou, o que aconteceu? Elas apareceram do nada já prontas ou se formaram a partir da matéria que Ele havia criado no instante inicial? Existe um mecanismo físico, com leis naturais que Ele criou para que elas se formassem? Para descobrir a resposta, tenho que supor que este mecanismo existe, não dizer simplesmente: foi um milagre. É verdade que foi milagre, mas como foi feito? A maioria das pessoas não vai se interessar por isto, mas a verdade é que estamos observando discos de acreção semelhantes à imagem acima, em que planetas e estrelas estão sendo formados (ou estavam, há milhares de anos, pois sua luz demorou a chegar até nós). Você não precisa saber sobre isto, não é um assunto essencial, mas não devíamos tratar a investigação científica como se fosse uma ameaça, nem a ignorância como se fosse uma virtude. A ciência é uma ameaça nas mãos de homens incrédulos que a usam para negar o Criador. Nas mãos de servos de Deus, deveria ser usada para glorificar o Criador. O inimigo não é a ciência, mas o mal uso dela. Afinal, é graças aos cientistas que você está usando o computador para ler este artigo hoje. Ciência e fé precisam fazer as pazes, pelo menos na cabeça dos crentes. O mundo nunca vai aceitar a autoridade da Bíblia, mas nós podemos ser crentes e cientistas sem comprometer nossos valores e convicções. Seremos sempre zombados pelos colegas de trabalho, mas poderemos dar nossa contribuição profissional para a sociedade sem crise espiritual. Haverá momentos em que será necessário rejeitar as teorias científicas por estarem em clara contradição com o relato Bíblico, mas não podemos nos precipitar em nossas conclusões para não cairmos nos mesmos erros que vários Cristãos do passado, como mostrei acima.
Então, como isto tudo se encaixa em Gênesis 1? Isto é assunto para o próximo post.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Apologética


Apologética é a parte da teologia destinada a defender a fé contra os ataques dos adversários. Mais cedo ou mais tarde, todo mundo acaba se deparando com situações em que precisa responder a ataques contra sua fé. Nestas horas, um pouco de conhecimento sobre os argumentos básicos dos adversários é bastante útil. Neste post eu resolvi abordar os argumentos de três dos mais famosos inimigos da fé cristã atualmente. São intelectuais que têm militado contra a Bíblia e instruído milhões de incrédulos a duvidarem ainda mais e que têm tentado, se possível, enganar até os próprios eleitos. Não tenho intenção de refutá-los detalhadamente, apenas vou resumir o que considero que são seus principais argumentos, para que você não seja pego de surpresa em alguma discussão. As respostas que eu apresento abaixo são simplistas, mas são suficientes para quem crê. Não tenho intenção de convencer incrédulos e céticos com argumentação lógica. Só o Espírito Santo pode fazer isto por meio da pregação do evangelho (ver post "Por que sou um Cristão?").

Richard Dawkins
O zoólogo Richard Dawkins, ex-professor da Universidade de Oxford, diz que "Deus é um delírio". Você não pode provar que Deus existe e a ciência não precisa de Deus para explicar a origem da vida e do universo, portanto, Deus é fruto da imaginação humana. O resto do que Dawkins diz é puro deboche da Bíblia.
Resposta: tá certo, Richard. Se você acha que não existe espírito, Deus ou propósito no universo, então você é só um monte de carne e ossos que está falando por acaso, fruto de um acidente. Sendo assim, por que eu deveria prestar atenção no que você diz? Na verdade, não faz diferença se estamos vivos ou mortos, não somos mais do que uma coisa que apareceu e vai desaparecer daqui a pouco. Se você quer acreditar nisto ou se isto te faz se sentir mais inteligente, não há o que discutir. Mas você vai ter que encarar o Juízo Final assim mesmo.
Sl 19:1 - "OS céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos."
Rm 1:18-20 - "Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça. Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;"

John Dominic Crossan
John Crossan foi co-fundador do seminário Jesus, criado nos anos 80 para desacreditar o relato dos evangelhos. Em seu livro "Quem matou Jesus?", ele afirma que a história de Jesus contada nos evangelhos canônicos não passa de um conjunto de invenções baseadas nas profecias do Velho Testamento sobre Jesus. Ele defende que as pessoas foram inventando estas estórias nos 2 primeiros séculos e elas acabaram sendo aceitas como verdades.
Resposta: tudo bem, ele pode achar o que quiser. Não há como ele provar a posição dele e nem nós a nossa. Mas nós, pelo menos, temos milhares de manuscritos antigos contando a história de Jesus e o testemunho dos pais da igreja sobre a morte dos apóstolos por causa da fé. John Crossan acha que um bando de pescadores analfabetos e um grupo de mulheres neuróticas inventaram uma estória que ia contra o judaísmo dos fariseus e por alguma razão esta estória fez sucesso, se espalhou com velocidade alucinante pelo mundo todo, as pessoas enlouqueceram, resolveram morrer por esta mentira, e o mundo ficou de pernas pro ar. É uma possibilidade, mas eu prefiro acreditar na versão contada pelos apóstolos.
John Crossan dá tanto valor aos evangelhos canônicos quanto aos gnósticos. Aliás,ele acha que os evangelhos canônicos copiaram do evangelho de Pedro (que não foi escrito por Pedro). Eu li este evangelho gnóstico. Dá uma olhada no texto abaixo, que narra a ressurreição:
"E enquanto estavam relatando o que tinham visto, viram novamente três homens saírem do sepulcro, dois deles apoiando o outro, e uma cruz que os seguia, e as cabeças dos dois tocavam os céus, mas a cabeça daquele que apoiavam, conduzindo pela mão, ultrapassava os céus. E ouviram uma voz vinda dos céus, gritando: "Pregaste para os que dormem? E da cruz foi ouvida a resposta: 'Sim.' "
A Bíblia está cheia de milagres que aceitamos e os céticos debocham, mas cabeças gigantes? Com uma cabeça destas, Jesus teria sido visto em todo o oriente médio. E depois perguntam porque os evangelhos gnósticos não foram aceitos pela igreja...

Bart Ehrman
Você sabe o que dizem por aí: a idéia de inerrância da Bíblia é ridícula, pois a Bíblia contém erros claros, até mesmo de ortografia. As pessoas repetem isto, mas em geral não são capazes de apontar os erros individualmente. Poucos são bem informados neste assunto. Para começar, no sentido mais estrito, a idéia de inerrância se aplica aos textos originais, não às suas cópias e traduções. Mas, então, se não temos os originais, como sabemos que o texto que temos hoje é confiável? Bart Ehrman, em seu livro "Jesus, interrompido", garante que o Novo Testamento não é confiável, pois é impossível saber o que foi escrito originalmente devido aos erros introduzidos intencionalmente ou acidentalmente nas cópias. Bart Ehrman é talvez a maior autoridade no mundo acadêmico sobre manuscritos da Bíblia e crítica textual. Ele discutiu este assunto em 2009 com o evangélico James White no debate "Did the Bible misquote Jesus?". Aqui vai um resumo dos principais argumentos dos dois:
Ehrman: Existem aproximadamente 5500 manuscritos do Novo Testamento, e existem em torno de 400.000 diferenças entre eles. Isto é mais do que o número de palavras no Novo Testamento. A grande maioria destas diferenças não tem importância. São erros acidentais, facilmente detectáveis, tais como erros de ortografia e palavras ou linhas omitidas por engano ou descuido. Outros são mudanças intencionais no texto. Ele cita a história da mulher pega em adultério em João 7-8 e os últimos 12 versículos do evangelho de Marcos, que segundo ele, provavelmente não se encontram no texto original. Na verdade, não temos os originais nem as primeiras cópias dos originais. Portanto, é inútil tentar reconstruir o texto do Novo Testamento, nunca saberemos ao certo o que foi escrito inicialmente. Se Deus inspirou os originais, por que não cuidou para que as cópias fossem inspiradas também?
White: É verdade que existem mais variações entre os manuscritos do que palavras no Novo Testamento. Quanto mais cópias de manuscritos você tem, mais variações serão encontradas. O Novo Testamento possui mais manuscritos do que qualquer outro texto da antiguidade, com 1 milhão e 300 mil páginas de texto escritas à mão. Mas, a grande maioria destas diferenças é totalmente irrelevante para o entendimento e tradução do texto, como Ehrman mesmo admitiu. Existem entre 1500 e 2000 variações relevantes, que precisam ser estudadas com mais cuidado. Pode parecer muito, mas isto constitui apenas 1% do texto do Novo Testamento.

As variações nos manuscritos do Novo Testamento refletem a rápida divulgação do texto nos primeiros séculos da era cristã. Assim que uma carta apostólica era recebida em uma comunidade, cópias eram feitas e distribuídas, havendo diversas linhas de transmissão independentes que podem ser usadas hoje para confirmar a veracidade do texto. Não existia uma autoridade central controlando as cópias, o que é bom, pois se houvesse tal autoridade, seria possível acusá-la de introduzir ou omitir textos intencionalmente. Deus escolheu preservar o texto da Bíblia através da rápida multiplicação das cópias. Isto garantiu que ninguém pudesse destruí-lo. Mesmo quando erros foram introduzidos por escribas, estes podem ser detectados por comparação com outras famílias de cópias. O trabalho é árduo e ainda existem várias passagens que são discutidas pelos especialistas, mas de forma alguma alguém pode dizer que o texto não é confiável ou que não sabemos o que Deus nos transmitiu. Na verdade, White defende que temos o texto original completo à nossa disposição nos manuscritos. O desafio é separar aquilo que foi acrescentado ou omitido (por engano ou intencionalmente) em alguns conjuntos de cópias, mas nada do que Deus quis que soubéssemos se perdeu definitivamente com o tempo. Deus inspirou e preservou Sua Palavra. Embora isto não possa ser provado, também não pode ser desprovado, e aceitamos pela fé. Só porque Deus não fulminou cada pessoa que cometeu algum erro enquanto copiava algum manuscrito, não quer dizer que Ele não preservou Sua Palavra. Do mesmo jeito hoje, se eu digitar errado algum versículo da Bíblia, Deus não vai impedir que este texto com erro seja publicado na internet. Mas, graças a Deus, Ele preservou milhões de outras cópias do Texto Sagrado que podem ser usadas para detectar meus erros de digitação. Isto se chama Providência.
Uma nota final sobre este assunto. O Velho Testamento foi escrito em hebraico e aramaico, mas os autores do Novo Testamento citam o Velho Testamento em grego, muitas vezes fazendo uso da famosa tradução "Septuaginta". Se Jesus e os apóstolos não achavam que era um problema usar uma tradução com diferenças em relação ao texto original, nós também não deveríamos nos preocupar tanto com pequenas diferenças que existem entre os manuscritos originais da Bíblia e suas cópias e traduções. A Bíblia que compramos na livraria ainda é a Palavra de Deus.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Qual Bíblia?

A Bíblia é a Palavra de Deus. Foi inspirada pelo Espírito Santo. Cada palavra, cada letra. Sendo inspirada, é inerrante e infalível. E mais, é suficiente para nossa vida espiritual, sendo a única regra infalível de conduta e fé. Assim pensavam Jesus e os apóstolos:
 
Mt 5:18 - "Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido." (Jesus, após mencionar a Lei e os Profetas, ou seja, o Velho Testamento)

Jo 10:35 - "Pois, se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada)," (Jesus, após citar o Salmo 82, de Asafe)

II Pe 1:20-21 - "Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo."

I Ts 2:13 - "Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes." (Paulo, a respeito de sua própria pregação)

II Pe 3:15-16 - "E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição." (Pedro, afirmando que os escritos de Paulo são tão inspirados quanto "as outras Escrituras")

I Tm 5:18 - "Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário." (Paulo, citando tanto Dt 25:4 quanto Lc 10:7 como Escrituras Sagradas, provando que o Evangelho de Lucas foi inspirado)

II Tm 3:16-17 - "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra." (Prova da inspiração e suficiência das Escrituras, que incluem tanto o Velho Testamento quanto o Novo, conforme os textos acima)

Ap 22:18-19 - "Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro." (Sem comentários!)

Aí está, não há como contestar. Se você se diz Cristão, tem que acreditar em Jesus, imitar Paulo, seguir o ensino dos apóstolos. Eles disseram que é tudo inspirado. A pergunta é: tudo o que? Quais livros? Qual cânone, o católico romano, o ortodoxo ou o protestante? Se as palavras são inspiradas, que dizer das traduções? São inspiradas também? Qual delas? NVI, ARA, ARC, ACR Fiel, BLH? Quanto aos manuscritos, após milhares de anos de cópias, não se introduziram erros? Existem livros da Bíblia que se perderam ou foram excluídos do cânone pelos concílios da igreja? Quem decidiu quais livros foram inspirados? As pessoas que decidiram isto eram infalíveis? Se não, como saber que não erraram na escolha? Como você sabe que Mateus escreveu Mateus?

Para começar, vamos pensar no cânone, ou seja, a lista de livros inspirados. O cânone do Novo Testamento é o mesmo nas Bíblias protestantes e católicas. Os chamados apócrifos ou deuterocanônicos aparecem no Velho Testamento da Bíblia romana, mas não na protestante. Basicamente, eles são livros escritos nos 4 últimos séculos antes de Cristo e considerados inspirados pelos católicos romanos e ortodoxos porque encontram-se na famosa tradução dos setenta, ou Septuaginta. A Septuaginta foi uma tradução do Velho Testamento hebraico para o grego koiné, realizada por 72 rabinos em Alexandria entre os séculos 3 e 2 antes de Cristo. Estes livros aparecem também nas primeiras traduções da Bíblia inteira (Velho e Novo Testamentos) para o grego, como o Codex Vaticanus (325 a. D.), Codex Sinaiticus (340 a. D.) e Codex Alexandrinus (450 a. D.). Aparecem também na primeira tradução para Latin, a Vulgata (385-405 a. D.) e na famosa tradução do Rei Tiago (King James Version) em sua versão original de 1611, alocados em uma seção separada.

Se tantas Bíblias antigas incluem os apócrifos, por que os protestantes rejeitaram-nos? Afinal de contas, quem decide o cânone? De que adianta saber que existem livros infalíveis se não temos alguém para infalivelmente nos dizer quais são estes livros? Os católicos romanos “resolvem” este problema afirmando que possuem um magistério infalível para tomar tais decisões. Roma decidiu o cânone. Isto é conveniente, mas é impossível justificar tal infalibilidade, o que acaba criando mais problemas do que resolvendo. Por exemplo, o Papa Gregório, o Grande (540 a 604 a. D.), escreveu que o livro apócrifo I Macabeus não era canônico (Morals on the book of Job, vol. 11, partes III e IV, livro XIX, 34). Mas o Concílio de Trento (1546 a. D.) disse que é, portanto, o Papa Gregório falhou. Se a autoridade final é o Concílio Ecumênico, por que Deus esperou 1500 anos até que o cânone fosse estabelecido infalivelmente? Como os Cristãos antes disto poderiam saber quais eram as Escrituras? E por que devo acreditar que Trento foi infalível, se vários santos de renome no passado não aceitavam os apócrifos como inspirados, tais como Orígenes (185-254 a. D.), Atanásio (295-373 a. D.) e Jerônimo (347-420 a. D., apesar de tê-los incluído na Vulgata, não os considerava canônicos) (J. R. White, Scripture alone, BethanyHouse, 2004)?

Na verdade, existem duas razões por que os protestantes rejeitaram os apócrifos: por inconsistências doutrinárias e, principalmente, por que eles não se encontram no cânone da Bíblia Hebraica, o chamado Tanach. Deus confiou o cânone do Velho Testamento aos judeus:

Rm 3:1-2 - “QUAL é logo a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em toda a maneira, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas.”

O cânone do Velho Testamento é aquele atestado por Jesus, e Suas palavras indicam que o cânone aceito pelos fariseus (idêntico ao protestante - http://catholicdefense.blogspot.com/) é o que deve ser usado:

Mt 23:1-3 - “ENTÃO falou Jesus à multidão, e aos seus discípulos, Dizendo: Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem".

Jesus dividiu o Velho Testamento em três partes, assim como o Tanach hebraico:

Lc 24:44 - “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos.”

É verdade que, como o Novo Testamento foi escrito em grego, os apóstolos às vezes usavam a Septuaginta ao citarem textos do Velho Testamento. No entanto, eles nunca citaram nenhum texto dos apócrifos (o livro de Enoque, supostamente citado por Judas, não é apócrifo, é pseudepígrafo, e não se encontra no cânone católico). Por outro lado, o Novo Testamento contém centenas de citacões dos livros do cânone hebraico/protestante, incluindo 94 citações do Pentateuco (Lei de Moisés), 99 dos Profetas e 85 dos Escritos/Salmos (http://www.bible-researcher.com/nicole.html).
O interessante é observar que os judeus acertaram o cânone mesmo antes de Jesus confirmá-lo. Os judeus tinham um magistrado infalível? Não. São homens falíveis identificando corretamente um cânone infalível. O mesmo aconteceu com a Igreja em relação ao cânone do Novo Testamento. Não confiamos em uma organização humana para determinar o cânone. Confiamos que Deus teve um propósito de revelar Sua Palavra à igreja para que ela pudesse cumprir sua missão. Confiamos na soberana mão de Deus sobre este assunto. Assim, Ele revelou o cânone do Novo Testamento por meio de Seu Espírito à Sua igreja. Houve controvérsias? Lógico, sempre há. Os saduceus também não aceitavam o cânone dos fariseus, aceitavam apenas o Pentateuco. Os judeus helenistas aceitavam os apócrifos. Só que Deus faz conhecer Sua Palavra. Assim, com o tempo a Igreja acabou sendo praticamente unânime quanto ao cânone do Novo Testamento, onde católicos, ortodoxos e protestantes estão de acordo. Como o cânone do Velho Testamento hebraico é o que deve ser seguido, pra mim isto encerra a discussão.

Continua na próxima.